O tempo do meio

São Martinho

No dia de hoje a casa cheirava sempre a castanhas. A minha mãe assava umas e cozia outras, havia para todos os gostos. E o meu pai abria uma garrafa de água-pé, que tinha uma cor bonita. Às vezes vinham amigos comer connosco, e havia risos por entre o cheiro a castanhas e a água-pé.

Mais tarde era o meu pai que cada ano cozia castanhas e me convidava para as ir comer com ele. Quando chegava já estavam prontinhas, abafadas debaixo de uma manta, sobre o fogão. Não me lembro se ainda havia água-pé. Era uma festa pequenina, mas ainda assim uma festa. E felizmente sabia que o era. Gostava do cheiro que trazia o de outrora.

Este ano o Verão que se prolongou Outono fora não deixou apetecer as castanhas na rua, que antes sempre comia pela Baixa. Volto a casa com as mãos limpas de não as ter descascado. No cesto de verga estão umas castanhas cruas, frias. Vou talvez cozê-las e tentar fazer regressar o cheiro a erva-doce de um tempo que não volta.

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Vaivém

Quando o meu avô deixou Paris, para onde havia emigrado com 17 anos, não sabia que era para não voltar. Veio a Portugal fazer o serviço militar e regressava a Paris quando na Catalunha conheceu uma rapariga, e foi por ela que não seguiu viagem.

Um dia contou-lhe que estava apaixonado, e perguntou-lhe como se pedia namoro, porque ainda não dominava a língua. Ela deu-lhe uma ideia, e ele perguntou-lhe o que responderia se as palavras fossem para ela. E ela disse que sim.

Deste amor nasceu a minha mãe, em 1933, em Sallent, onde viveu a Guerra Civil de Espanha: os gritos, as fugas para o refúgio, os bombardeamentos, os feridos, os mortos, as ruínas, a fome. Esta última permaneceu muito para além da guerra: por causa da fome, um jovem cuja mulher não podia amamentar foi morto pelo vizinho a quem tentava roubar umas batatas; por causa da fome, o som mais esperado era o que anunciava o pão a cozer; por causa da fome, espremiam-se as cascas de laranja que se encontravam no lixo, só para sentir o cheiro deste fruto. E eram as mulheres carecas que andavam pelas ruas depois de beberem purgante. E eram os familiares na prisão. E eram os campos de trabalhos forçados.

Acabada a guerra, a minha mãe veio viver, com os pais, para a aldeia do meu avô, em Portugal. Recordava as varandas de madeira e os cantares ao desafio, que muitas vezes acabavam em zaragata, a seus olhos pequenas guerras de brincar. Durante este tempo, a única perturbação era a bata suja de tinta nas costas, mistério indecifrável até ao dia em que a trança era maior e fez cair o tinteiro do miúdo que se sentava na carteira detrás na escola.

Este lembrou-se do dia em que o tinteiro tinha caído muitos anos mais tarde, quando encontrou a menina das tranças em casa de uns amigos em comum, e em Sintra começaram a namorar. Em 1957, quando se casou, a minha mãe deixou para trás a Catalunha, onde se falava a língua que considerava a mais doce do mundo, e veio viver para o país que também era seu. Mas a guerra não ficava totalmente para trás, e nunca suportaria a trovoada, que a levava de volta aos bombardeamentos.

Depois da morte do meu avô, num hospital de Barcelona, a minha avó, a quem sempre chamei iaia, veio viver connosco, e alegrou de sons doces a minha infância. O meu avô, nascido em Portugal, encontra-se num cemitério na Catalunha, e a minha avó e a minha mãe, nascidas na Catalunha, estão num cemitério em Portugal.

Sou matéria do vaivém entre os dois extremos da Península Ibérica. Ele traz-me de volta a memória dos meus afectos.

Retalhos

Pedaços da vida
que teima
em já não ser,
quando o dia
indolor
de vos tocar?

Voaram os balões de Santo António

que havia no fundo dos teus
olhos em busca dos meus
no silêncio das palavras
inquieto eco
na ânsia tranquila
do amanhecer
incrédulos
fomos meninos
naquela hora
de certezas impoluta
as mãos deram-se lentamente
caiu súbito orvalho
na semente a desabrochar
quase voámos

Monsanto

Esta manhã quando acordei tive uma consciência aguda dos muitos músculos que vivem nas minhas costas, habitualmente esquecidos. Nas pernas também se escondem outros. Que é feito deles em quase todos os dias do ano, em que caminho pouco ou nada? O seu súbito aparecimento gera preocupação por eles, pela forma como decerto definham continuamente. Se um passeio de três horas os faz ganhar coragem para se manifestarem de forma tão vigorosa, é porque valem a pena, porque são amigos. Daqueles que estão sempre lá, para o que der e vier. Compreendi que devo proporcionar-lhes mais momentos de contacto com a natureza e de convívio comigo. Do alto de Monsanto avista-se um eu esquecido.

Lugares

Há lugares assim. Onde não nos sentimos em casa. Onde a madeira dos móveis tem calor à nossa espera, onde a luz não apaga a magia, onde flores rosadamente crescem de uma chaleira, onde a alegria dança ao som da música que toca a alma.

Há lugares assim. Onde a um canto observamos, como escondidos pela sombra num palco, em silêncio. São lugares aos quais sabemos não pertencer, de onde partimos sempre com o desejo de voltar.

A manhã deles

Fios invisíveis unem aqueles que em doce cumplicidade falam e riem, mas comunicam sobretudo pelo olhar. Há neles algo de divino. Os corpos transpiram ainda a alegria da descoberta mútua.

Notícia de um tempo feliz

O fim começa quando deixamos de invejar os pássaros por poderem voar.

É tão importante, e no entanto não nos lembramos dele, não o podemos datar.

Mas torna-se agudamente presente quando um dia, por um instante absortos das nossas inadiáveis tarefas, olhamos pela janela alta da biblioteca e distinguimos lá ao fundo, na rua por onde nunca tivemos tempo de passear, um pássaro que se agita sobre uma árvore, fustigada pelo vento. Feliz?

Providence, Julho de 2001

1 de Janeiro

Na frescura cheira a erva acabada de cortar. Adormecemos com a tranquilidade dos que deixaram para trás a carga que pesava já muito. O sol nasceu como no primeiro dia do mundo. Somos tão novos que caminhamos com vagar e cuidado como sobre papel de arroz. Receio de quebrar a promessa de cristal.

Incerteza

A pedra que levanto é sempre a mesma
e cada vez lhe sinto mais o peso
pesa também já não ter a certeza
de ainda a conseguir carregar.